sexta-feira, 20 de novembro de 2009

DECORAÇÃO ÍNTIMA


Um gato rasga as paredes
E logo outro e muitos mais


Há gatos no sono profundo

Miando

Com a respiração solta

Sempre a correr

Por cima dos sofás surdo

E dos livros furados ao meio


Um quadro dispara

É mais um gato para a mesa

Enquanto um solitário

Quase tomba as suas flores
Pétala a pétala no chão



DESENHO: João

POEMA: Regina

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

CONVITE



Convido V. Exa. para o lançamento do livro “O Duende Barnabé e as Cores Mágicas”, de Lurdes Breda, Joana Rita e Lina Carregã, editado pela Editora Nova Educação (Braga), que se realizará no dia 14 de Novembro, pelas 17.00 horas, na Loja FNAC, em Coimbra. A apresentação da obra será efectuada pela Dra. Susana Branco, Professora Bibliotecária, na Escola Básica do 2º/3º Ciclos Dr. José dos Santos Bessa, na Carapinheira (Montemor-o-Velho). Este evento terá a participação do músico Nuno Mouronho e do Coro dos Pequenos Cantores de Coimbra.

Obrigada,

Lurdes Breda.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

BONECA DE TRAPOS

— Avó leva-me lá abaixo ao teu mundo… Hoje está um dia tão triste.

— Estou cansada… Cada dia é demasiado longo para mim. Nesta tarde também sinto uma grande tristeza, uma tristeza sem razão, mas que é imensa. A minha vida já é demasiado inútil… Vi esta cidade crescer. De repente, as pessoas começaram todas uma vida nova e eu fiquei aqui, perdida no tempo! No princípio, senti muito medo, assisti apavorada à demolição de tudo quanto existia. As nossas casas foram reduzidas a pó e as árvores e jardins foram sacrificados para darem lugar a esta coisa chamada futuro. No entanto, não é medo aquilo que sinto, é apenas tristeza. Às vezes acho que o progresso errou em ter-me deixado ficar, eu devia ter sido sacrificada também, juntamente com as árvores. Perdoa-me Luísa por te falar de coisas tão tristes… A verdade é que eu nunca falo com ninguém senão contigo. Tu és compreensiva e meiga, é por isso que te escolho, é por isso que às vezes te levo comigo… Gosto muito de ti!

— Eu também gosto de ti avó. E gosto de tudo quanto me contas. E quando me levas lá abaixo, ao teu mundo, eu fico feliz. Lá, sinto-me diferente, porque os teus olhos brilham de outra maneira! Vem, leva-me e vamos acabar com a tristeza desta tarde!

— Já te disse que estou cansada… Mas quem resiste a um pedido feito com tanto carinho? Tens razão! Vamos…

Deram as mãos e, com um renovado sorriso nos lábios, desceram…

Aquela casa, como todas as outras da Grande Cidade, tinha comandos para tudo: abrir portas e janelas, subir e descer, comer e dormir, trabalhar e descansar… Comandada e programada até ao tecto! Porém, lá em baixo, a porta abria-se sem comandos…

Entraram. A avó com a alma cheia de lembranças, a Luísa com o coração aberto à fantasia.

Lá dentro, havia uma grande janela, que se abria e deixava entrar o Sol… Tudo o resto era vazio, apenas duas cadeiras e a grande e velha arca no centro. A sua tampa era pesada demais, mas num esforço alegre e mútuo, ela foi levantada devagar… Naquela tarde aconteceu o que sempre acontecia… Sentaram-se as duas junto da arca e começaram a viagem...

— A tua fotografia… Eras muito bonita avó! Gosto destes sítios onde apareces… O campo, os frutos e as flores de todas as cores que nasciam em qualquer lugar! Hoje só temos flores nas estufas e eu não gosto de lá ir, é um sítio tão frio e fechado.

— Tens razão, agora todas as coisas são frias e fechadas! Esta cidade aperta-me a alma. Tenho a minha alegria esmagada contra estes horizontes cercados por vidros.

— Nunca conheci a liberdade do teu olhar! Avó, porque é que os homens fizeram a vida mudar assim?

— Porque a vida é um sonho constante e os homens sempre quiseram a mudança, sempre sonharam poder unir os povos e acabar com as barreiras… Por isso, construíram esta grande e única cidade para todos. Queriam ser felizes! O sonho realizou-se, mas a Grande Cidade, com a sua simetria e estruturas automáticas, não conseguiu o sonho perfeito: a felicidade. Agora, os homens estão cansados e com pouca coragem para continuarem a sonhar.

— Avó, eu acho que seria feliz se pudesse sair daqui… Se pudesse voltar ao teu tempo, ao tempo das flores!

— Podes fazê-lo… Basta imaginação! Vem cá… Aqui tens uma coisa que nunca te mostrei… — e pegando num pequeno objecto, colocou-o entre as mãos da criança. — A minha boneca de trapos, a minha querida boneca de trapos!

Luísa, com os olhos maravilhados e cheios de curiosidade, pegou naquela coisa tão pequena e fofa, e apertou-a nos seus dedos. Sorriu…

— Uma boneca! — disse a Luísa entusiasmada. — Tenho muitos robots que andam, falam, respondem a perguntas, fazem mil e uma habilidades, mas uma boneca… Eu nunca tive!

— Tinha eu sete anos quando a fiz. A partir de então levava-a comigo para onde quer que fosse. Era a minha companheira, a minha melhor amiga, a minha fada boa… E, às vezes, ela era a minha própria consciência! Dava-me conselhos e quando eu estava triste, ouvia e compreendia as minhas mágoas. Muitas vezes até chorava comigo. Quando estava Sol, íamos as duas pelos campos, eu colhia flores e ela contava-me histórias… Ela sabia todas as histórias mais belas! Brincávamos todo o dia e à noite, cansadas, mas felizes, íamos sonhar… Juntas!

O Sol tinha já a cor do fogo de todo o entardecer. Os olhos da Luísa eram mais quentes do que o próprio Sol. A sua imaginação era uma ave perdida num céu de sonhos!

— Avó, esta boneca é a coisa mais bonita do mundo!

— Leva-a contigo e escuta tudo o que ela te vai contar. Com ela podes ir para onde quiseres… Sair desta cidade e ir até à estrela mais alta e distante!

Vieram as primeiras estrelas. Luísa, através da grande janela da câmara de estudo, olhava quieta e silenciosamente a Grande Cidade. Pouco podia abranger, o seu olhar. Mal conseguia suportar o brilho intenso de todas as luzes. A cidade era um lago de fogo onde as casas se alinhavam altas e iguais. A configuração geométrica da cidade estendia-se diante da criança que olhava atemorizada o labirinto infindável de estradas paralelas e perpendiculares. Luísa vivia a sua existência, assim como todos os outros habitantes, anónima e esquecida dentro dum cubo com portas e janelas.

Na câmara de estudo o silêncio era obrigatório. Concentração e cálculos eram as únicas actividades permitidas. Luísa, como sempre àquela mesma hora, esperava pacientemente o fim do dia. Depois, iam juntos, ela e os pais, para a câmara de alimentação.

Aí, eles riam, falavam, reencontravam-se. Luísa aproveitava para contar o seu dia, descrevia cada hora, cada coisa nova que aprendera… Na sua idade já tinha de executar bastante trabalho, especialmente de pesquisa. A sua câmara de estudo estava apetrechada com tudo o que era necessário para a sua formação.

— E hoje, o que fizeste de novo? — perguntou a mãe, que apesar de muito cansada, nunca deixava de dar à Luísa um pouco de atenção. Sabia que a Luísa se sentia sozinha, mas o seu trabalho ocupava-lhe o tempo todo e pouco lhe restava para poder dedicar à filha. A sua missão era importante e, como bióloga, tinha de chegar ao fim das suas análises. O programa de alargamento da cidade dependia, em grande parte, dos resultados que obtivesse. Tinha que tentar aumentar o valor nutritivo de cada alimento, pois, em breve, chegariam os outros povos, os que ainda não tinham sido integrados. A Grande Cidade tinha de ser para todos e a todos era preciso alimentar.

— Hoje terminei cedo os estudos. Depois, pedi à avó que me levasse lá abaixo, onde estivemos quase toda a tarde. Quando voltámos ela estava cansada e foi para a câmara individual.

— Ah… Então a tua avozinha levou-te lá abaixo… — exclamou ironicamente o pai, que até ali se mantivera calado e distante. Estava muito preocupado com o seu trabalho. A Grande Cidade também dependia dele. Tinha de apresentar, como engenheiro que era, um projecto completo para o desejado alargamento da cidade. Muitos povos estavam ainda por chegar e a Grande Cidade tinha de ser mesmo grande. — Então, e qual foi hoje a grande descoberta? Um cavalinho de pau ou uma estatueta de madeira cheia de pó?…

— Hoje foi diferente… Tenho aqui comigo a coisa mais bonita que já vi! Uma boneca de trapos…

Luísa, com os olhos repletos de alegria, sacou de um dos bolsos do seu traje de plástico, a pequena boneca que mostrou, querendo partilhar o seu contentamento.

— Ah… A boneca de trapos!… Sim, acho que me lembro de qualquer coisa dessas… A tua avó tem a mania de guardar tudo. Também me recordo de, um dia, ter visto a minha mãe a mexer numa coisa velha, que dizia ter feito quando era criança. Antes era assim… Não tinham o que agora, felizmente, nós temos!

— O que hoje temos… — repetiu a Luísa tristemente. — Antes havia as flores!

— Mas tu também tens flores! — respondeu a mãe. — E quando te queremos levar à estufa, nunca queres ir…

— Queria flores com Sol…

— Enfim, a tua avó enche-te a cabeça de coisas inúteis! — concluiu o pai.

E o silêncio encheu a noite.

Na manhã seguinte, Luísa despertou com um raio de Sol, que entrava pela janela e lhe banhava o rosto. Aconchegava contra si a pequena boneca e quando saltou da cama foi com ela até à janela, onde, com olhar vago, permaneceu durante algum tempo, esquecida de tudo quanto, ali dentro, a rodeava.

A cidade estendia-se, à sua frente, magnífica! E, todavia, estranha. Foi como se pela primeira vez ela contemplasse tudo aquilo!

Luísa sentiu uma profunda piedade pelas pessoas que ali viviam e pensou na solidão que elas deviam sentir, ainda que inconscientemente, ao serem totalmente controladas. O céu, de repente, pareceu-lhe libertador! As nuvens passavam devagar, umas distantes, outras mais próximas… Em cada uma havia um sonho que ela, naquela manhã, soube descobrir!

Longo tempo se passou e a Luísa ali ficou, quieta e distante, na janela aberta sobre todas as coisas… Viajou por mundos que nunca imaginou existirem. Naquela manhã, manteve-se esquecida de qualquer obrigação. Não se fechou, como todos os dias fazia, dentro da sua câmara de estudo. Naquela manhã foi diferente e decidiu que, a partir de então, seria sempre assim. Que coisa mais importante haveria do que ser feliz?…

— Mais importante do que ser feliz, é a própria vida, que não quer que a esqueçamos! — respondeu-lhe a mãe passados uns dias, quando começou a notar o afastamento da Luísa.

No princípio não deu atenção ao silêncio em que a criança vivia. No seu olhar nada via de estranho, por isso, fazia o seu trabalho sem outra preocupação senão conseguir chegar a resultados positivos. Mas, de repente, começou a achar a sua filha diferente… Nos fins de tarde, a Luísa já não corria para a abraçar, já não vinha com um sorriso aberto contar-lhe tudo.

A mãe quis saber a razão daquela mudança. Luísa apenas dizia que queria estar sozinha, que descobrira uma maneira de ser e de sentir feliz. Queria compreender melhor a vida e, sobretudo, queria descobrir a verdadeira cidade da felicidade. A mãe perguntou-lhe quem lhe havia metido tais ideias na cabeça e ela respondeu que ninguém existia dentro de si a não ser ela própria.

Mas, a cada dia, o afastamento da Luísa era maior e o seu silêncio tornou-se constante. Para ela absolutamente nada parecia ter importância. Até o pai estava inquieto com aquele comportamento. Pensou que fosse passageiro, contudo, o tempo contradisse essa ideia, por isso, a sua preocupação cresceu, assim como o desespero da mãe de Luísa. Mesmo a avó, que no início achava aquilo natural, começou a pensar que talvez fosse grave… Nada justificava o profundo silêncio, o alheamento de todas as coisas.

E tudo fizeram, tudo tentaram para que Luísa voltasse ao mundo real… Os pais mal conseguiam concentrar-se nos seus importantes trabalhos e os dias corriam sem que eles soubessem o que fazer. Era tudo em vão… As tentativas para despertar Luísa daquela tão profunda solidão não tinham qualquer resultado.

Durante longas horas conversavam com ela. Quando podiam, levavam-na para a estufa, onde havia as flores que Luísa tanto adorava. Compravam-lhe um novo computador que ela sempre tinha desejado… Mas, Luísa nada falava, nada gostava, nada desejava! Os olhos perdiam-se na distância, que somente a sua alma atingia. Embarcara numa viagem onde ela era a única passageira… Nada levou consigo, nada… Nenhuma palavra, nenhum pensamento… Apenas um coração dentro de si e uma boneca de trapos nas suas mãos pequenas!

Os pais de Luísa experimentavam um verdadeiro suplício. Sem esperanças, sentiam-se cada dia com menos alento e mais infelizes. Pensavam terem perdido para sempre a sua filha! Sabiam que o progresso da Grande Cidade dependia deles, por isso, tentavam esquecer a dor que lhes pairava na alma e mergulharem no trabalho. Mas o sofrimento era grande demais e ocupava demasiado espaço dentro deles.

— É impossível continuar assim… — murmurava a mãe de Luísa — Há duas horas que deveria ter terminado este relatório e não consigo pensar nas palavras, não consigo fazer nada.

— Temos de acabar com esta situação custe o que custar… — respondeu o pai em tom resoluto.

A mulher escutava-o silenciosa e abatida… Para ela era impossível fazer o que quer que fosse.

— O que podemos nós fazer? Já fizemos tudo quanto era possível! Luísa partiu para sempre… Desde aquele dia em que encontrou a boneca, que nunca mais teve vida!

— A boneca!… — gritou o pai e, de um salto, pôs-se a andar dum lado para o outro, como se, de repente, uma ideia muito forte surgisse na sua mente — Se a boneca desaparecesse, a Luísa voltaria!

A mãe, como que adivinhando aquele pensamento, sobressaltou-se e disse aflita:

— Não sei se seria justo… Se não seria demasiado cruel!

Durante alguns momentos o silêncio reinou no ar, que se tornou escasso para os sentidos… Depois desta pausa, ele retorquiu:

— Talvez seja cruel, mas é necessário. Não podemos permitir que um encanto, uma coisa inexplicável, destrua assim as nossas vidas. Quantos dias passámos aqui, sempre a pensar no mesmo problema, sem conseguirmos um pouco de paz para concluir o nosso trabalho? Não podemos perder mais tempo, temos uma missão a cumprir e não podemos permitir que, por causa da nossa filha, tantos povos tenham de esperar para aqui entrarem… A Grande Cidade precisa de nós!

A tarde ia acabando. Os pais de Luísa ficaram parados diante da janela que dava para a cidade. Os seus olhos vaguearam por instantes pelas filas de casas iguais. Nos teletransportadores as pessoas passavam oprimidas. Não obstante, os seus rostos expressavam-se decididos e cheios de projectos para o futuro da cidade.

— E para além de tudo… — continuou o pai de Luísa — Será para o próprio bem da nossa filha. Não será nada demais… Basta que a boneca desapareça e pronto.

— Tens razão… Mas talvez a Luísa tenha encontrado um mundo onde é feliz e não sei se será justo tirá-la de lá.

— Também não é justo vivermos neste desespero! — concluiu.

E preparou-se tudo. Uma lamparina eléctrica e um recipiente de vidro, onde seria executado o sacrifício. Faltava conseguir tirar a boneca das mãos de Luísa…

A noite, entretanto, caíra. Luísa tinha ido deitar-se e dormia profundamente. O seu rosto, pequenito e sereno, parecia feliz… Era como se estivesse às portas do paraíso! Quase se podiam adivinhar os seus sonhos…

Durante um longo tempo a mãe ficou ali, contemplando a criança. Depois, e com cuidado para não a acordar, tirou-lhe a boneca de entre os dedos…

No dia seguinte, sentindo o ruído de um teclado e o funcionamento de um computador, a mãe de Luísa correu até à câmara de estudo da filha, pois, era dali que o som provinha. Ficou muda de espanto quando viu Luísa toda entusiasmada frente ao computador que lhe tinham oferecido.

O recipiente com as cinzas tinha ficado, por esquecimento, naquela mesma câmara. Mas a Luísa parecia não ter dado importância alguma àquilo. Parecia que aqueles dias todos não tinham passado, que a memória da Luísa tinha dado um salto desde a tarde em que mergulhara no seu alheamento até àquela manhã cheia de Sol.

Para evitar qualquer lembrança, as cinzas tinham desaparecido. Tudo tinha terminado em bem. Luísa recuperava o tempo que perdera, por isso, passava o dia inteiro na sua câmara de estudo. A avó, embora tivesse ficado triste, compreendera bem a necessidade do sacrifício. Ia, agora, sozinha lá abaixo, ao seu mundo, pois a Luísa não estava interessada em coisas tão aborrecidas. Preferia ficar sentada defronte ao computador.

Os pais retomaram o trabalho com a mesma concentração de antes. Até que, um dia, o olhar da mãe de Luísa pousou, sem querer, no recipiente das cinzas… Mas, como?!

Atraída por uma força inexplicável, levantou-se e aproximou-se do objecto. O marido, vendo isto, perguntou-lhe:

— O que fazes?! O que é que está aí?!

E como não obtivesse resposta, seguiu-a…

O silêncio reinou na câmara de trabalho, ninguém sabe durante quantos dias, quantos anos, quantos séculos…

E da Grande Cidade, nunca mais nada se soube.



Conto publicado no mensário “Notícias de Colmeias”

Texto: Regina

Ilustração: José Costa

Fotografia: David Marcos

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

DIAS ZERO

Para o João que era um catraio de escola, terá sido fácil inspirar-se nas tortuosas linhas de Kandinsky para desenhar esta fabulosa cadeira, bastou-lhe substituir o pincel pela caneta de feltro e a mão pela boca. Coisa de nada, apenas a necessidade de usar a cabeça para ser feliz independente da imobilidade física do resto do corpo. Fica o resultado que, segundo a opinião do próprio, está com pouca qualidade... Nem adianta contrariar!

Tela de Kandinsky que inspirou o João

Desenho de uma cadeira feito pelo João, inspirado na tela de Kandinsky exposta acima

I

Poema?
aqui no 3º esquerdo de uma loucura insuficiente
há abelhas sacrificadas por mim
o verso nada tem a ver com a geometria
é um ajustar de contas injusto
para quem guarda a alma no bolso
para quem desconfia
e marca os sentidos com um sinal
de futuro todas as casas
se abrirão com um canivete
Não venhas ó Poeta com manobras de palavras
curva-te perante as sombras
Ninguém suspeita ó Deus
e as tuas armas são mais brancas e puras

ó Tempo
aqui nada tem ângulos nem minutos
abre as algemas do destino
grita dez lágrimas absurdas
grita e bebe pelo cálice do silêncio

Fecha as tuas asas quentes
ó Pássaro sem limites e sem remorsos
porque nada brota da terra seca

Queima os meus cabelos com amor
aqui a garganta desmedida
o corpo demora a aquecer

Deus
em nenhuma parte se esquece
e o sol é um crime premeditado
por uma abelha azul e louca

II

Chove: vejo a decadência por um fio
azul de teia
onde andas Peixe Cantor
desde o primeiro verso
até à cratera aberta da alma

Que alívio matar o tempo com um acento
esdrúxulo
não ter nada de especial para dizer
nem para decorar com as pontas dos dedos

Em todo caso vou poisar num ramo alto
e nada escapará ao acaso

Desconfio das janelas
dentro das memórias de vento
com pó nos cabelo

Solto as palavras coladas ao céu
da boca mais profunda

Como um peixe esquivo e mal desenhado

Partem-se as sílabas
para fazer nascer os vínculos com a humanidade
que chove dentro destas gotas

O salitre mais puro sobre as minhas
rosas

Não regressarei às páginas das metáforas
mesmo que a lua se vire do avesso

III

Chove: a fragilidade de um nó mudo
e por um momento é possível sorrir
no meio das árvores sentidas
há apenas um reflexo contido
de um triste deslumbramento

O silêncio ao milímetro
dança no espaço aberto duma esfera

A loucura repete-se palavra por palavra
e não há nenhuma hipótese de juntar
as mãos de pedra

O céu muda o seu idioma
e já é possível diminuir
os verbos mais vertiginosos
já é possível chover e gritar

por mais forte que o pensamento caia

sábado, 27 de junho de 2009

TEMPO AFIADO NO LÁPIS


Uma natureza
Na mesa
Diz-se morta
Por ser plástica
Estática
No fundo das cores
Umas vezes vivas
Outras esbatidas

Os frutos de um olhar adormecido




DESENHO: João
POEMA: Regina