sexta-feira, 14 de março de 2008

Apresentação


É para mim um privilégio, serem as minhas palavras a abrirem este espaço. Um espaço que eu desejo, que possa vir a ser, tanto de partilha e de reflexão, quanto de surpresa e deslumbre pelas vertentes artísticas expostas, a todos quantos por aqui passarem.
Não posso falar da Regina e do João, sem sentir um orgulho imenso. São dois amigos fantásticos, que eu muito admiro!
A par com o lado humano e afectivo e, numa óptica mais objectiva, tenho a realçar as qualidades criadoras de ambos. Respectivamente na literatura e na ilustração, a Regina e o João dão forma a trabalhos de grande expressividade artística. A ponte entre o universo subjectivo do sonho e da fantasia, e a realidade social que os envolve, levam a que nas suas obras se entrecruzem os aspectos: humanitário, lúdico e pedagógico.
Enquanto escritora, e numa perspectiva profissional, tenho o orgulho de dizer que são inúmeras as vezes em partilhamos diferentes pontos de vista, cruzando pensamentos e ideias. Temos, inclusive, diversos projectos conjuntos.
É minha filosofia de vida acreditar no valor intrínseco de cada ser humano, independentemente das suas limitações físicas ou psíquicas. O “acreditar” pode ser a primeira pedra, das muitas que virão, para ajudar a erigir um castelo capaz de rasgar o cinzento das nuvens.
Considero, pois, relevante, para uma melhor compreensão do conteúdo e dos objectivos deste blogue, mencionar que quer a Regina e o João, quer eu própria — com as particularidades próprias respeitantes a cada um — somos deficientes motores.
É imprescindível que eu indique esta circunstância, não por uma questão de paternalismo ou comiseração, mas para que haja uma melhor compreensão e uma maior sensibilidade perante os conteúdos aqui expostos, e os obstáculos logísticos que cercam a sua execução. Que o olhar possa penetrar para além das palavras ou das imagens e que se possa escutar o silêncio, já que este pode estar preenchido de poesia…
Divulgar as capacidades intelectuais e criativas da Regina e do João foi, sem dúvida, a razão principal que levou à criação deste blogue. No entanto, seria extremamente gratificante, poder fazer desta iniciativa uma causa socialmente útil. Na medida em que promovesse a inclusão e pudesse ser, ao mesmo tempo, um incentivo para todos aqueles que deixaram de acreditar (deficientes ou não deficientes).
Gostaríamos ainda de passar a mensagem de que o cidadão deficiente, não carece de compaixão, nem tampouco é alguém incompleto. É, tão só, alguém diferente, como o são, aliás, todos os seres humanos na sua vasta globalidade.
Não se devem subestimar ou menosprezar os deficientes, colocando-os à margem de determinadas actividades, por se considerarem inaptos para as executar. É necessário encontrarem-se dimensões de equilíbrio, entre a superprotecção e a exclusão. Há que ser-lhe facultado, o sentir-se útil. Isso é fundamental para o enriquecimento da sua auto-estima.
A deficiência, também não pode, por parte dos seus portadores, ser encarada como uma defesa pessoal, para a falta de coragem em enfrentar a vida e o mundo. Deve, antes, ser pensada como um desafio! Em termos cognitivos, é preciso colocar a aprendizagem, gradualmente adquirida, ao serviço da evolução e da realização pessoais.
Alcançar o êxito dos nossos projectos, depende, sobretudo, de nós e da nossa força interior. Quanto mais árduo for o caminho a percorrer, mais gratificante será, indubitavelmente, alcançar o seu término.
Bem-vindos a todos, sem excepção. Deixem que a força, o calor, a magia, o sonho, o riso, a poesia e a cor deste espaço, tomem conta do vosso coração. Espero que ao fecharem a janela deste lugar, que para nós é de suave enternecimento, possam dizer baixinho: “Até amanhã!”. Onde quer que nós estejamos, iremos decerto ouvir… E as nossas faces encher-se-ão de luz, pois teremos, tal qual uma estrela, um amigo mais a iluminar o céu das nossas vidas!






ACREDITAR

Foi o calor da tua voz, a luz primeira,
que ousou rasgar a penumbra onde vivia mergulhado.
Sem saber bem porquê, acreditei,
quando disseste que as minhas mãos eram capazes de construir o futuro!
Agora, que a tua presença se insinua na minha existência,
abandono as margens do lago, onde por companhia, vagueava o meu reflexo…
Não mais receio o infinito que me cerca.
Estendo as longas asas de pássaro alado,
no imenso azul, de que é feito o céu, e plano alto…
Tão alto, que escuto os segredos pela aragem contados,
e alcanço as estrelas, em pleno resplendor do dia!
Fazes-me crer que todos os sonhos são possíveis…
Não vês tu no meu sorriso, a infindável dança das flores,
que adornam as colinas do tempo?
Se é o mesmo sol, de pétalas ouradas e exalantes,
a iluminar as nossas faces;
se é a mesma brisa, renovada em cada amanhecer,
a perfumar os nossos gestos;
se são as mesmas aves, a trespassar o oxigénio de que nos alimentamos;
então, porque outros me olham com estranheza?
Não terei eu a mesma capacidade de experimentar júbilo ou melancolia?
Também os meus olhos sabem rir e chorar,
e à noite, deita-se igualmente a meu lado, a esperança de um mundo sem dor…
Não quero que se enterneçam,
com aquilo que está para além do meu poder.
Antes, preciso da veemência que tem a tua voz,
quando depois de uma queda, incita a de novo me erguer.
Comigo repartes a poesia que possuem as cores do arco-íris,
e assim, me ajudas a pintar de suave realidade,
os fugidios retalhos da minha ilusão.
Foste tu quem me ensinou a amar a Terra,
e me desvendou que a água que dos meus dedos escorre,
faz germinar as sementes, que primeiro lancei no vento.
É verdade! As minhas mãos também têm o dom da vida!


(escritora)

4 comentários:

Magri disse...

Parabéns por este nascimento!
Parece que o "bébé" chegou sob os melhores auspícios, a julgar pela beleza da 1ª foto.

Que continue a crescer com todo o vigor de que é capaz.
A "deficiência" pode ser um obstáculo, mas é simultaneamente um desafio para a superação. E as deficiências menos visíveis (de que todos padecemos), são com frequência mais impeditivas de chegar a algum lado, e mais geradoras de conformismo e inércia.

Continuem pois a transformar os obstáculos em força, como já fazem.

O vosso exemplo e as vossas mensagens serão certamente um incentivo para muitos outros (nos quais me incluo, como portadora das tais deficiências menos visíveis).

Um grande abraço para o duo de três!
(e um beijinho especial para a Regina).
Até breve.

Jardineira aprendiz disse...

Yeesss!

Vamos construir castelos que rasguem as nuvens da uniformidade e da ignorância! Porque o mundo fica mais rico com os olhares e as palavras de quem o vê por prismas diferentes. As muitas faces do mundo, as muitas cores que só se revelam ao olhar de quem percorre caminhos diferentes.

Ele é de todos nós, mais ou menos diferentes uns dos outros, embora as maiorias exerçam frequentemente a ditadura inconsciente de uma normalidade que é apenas ilusória. E essa ilusão de normalidade é a verdadeira limitação do ser humano.

Viva o recém-nascido!

Beijos para os três, mas claro, em especial para a Regina!

Ana Pallito disse...

Amo os crentes.

Parabéns

Amita disse...

Saí daqui mais rica. Quando o silêncio nos canta, uma mera poeira transforma-se num arco-íris.
E quantas vezes nem damos conta :)
Felicito-vos pela profundidade e beleza das letras.
Um carinhoso abraço com o meu agradecimento por me terem dado a conhecer este espaço